Senador, que associava escândalo ao PT e à esquerda, reconhece pedido de recursos privados a Daniel Vorcaro após revelações do The Intercept Brasil
O senador Flávio Bolsonaro admitiu ter negociado pagamentos com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, após o vazamento de mensagens e áudios divulgados pelo The Intercept Brasil. A revelação provocou forte repercussão política por ocorrer depois de semanas em que o parlamentar sustentava um discurso associando o escândalo envolvendo o Banco Master ao PT e à esquerda.
Segundo a reportagem publicada pelo portal, Vorcaro teria repassado inicialmente R$ 61 milhões para financiar a produção cinematográfica intitulada Dark Horse, ainda não lançada. O acordo total, conforme os documentos revelados, previa investimentos de US$ 24 milhões — valor equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época.
As mensagens indicam que, diante de atrasos nos repasses restantes, Flávio Bolsonaro teria procurado o banqueiro para cobrar a liberação dos recursos acordados para a produção audiovisual sobre seu pai. Após a divulgação do conteúdo, o senador confirmou a existência das negociações financeiras.
“Sim, tinha um contrato”, declarou Flávio, ao afirmar que os recursos seriam destinados a um “patrocínio privado para um filme privado”. O parlamentar tentou afastar qualquer relação institucional ou política com o caso investigado pelas autoridades.
A admissão representa uma mudança significativa no discurso adotado anteriormente pelo senador. Nos últimos meses, Flávio vinha defendendo publicamente a abertura de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar supostas irregularidades envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro, frequentemente relacionando o caso ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a setores da esquerda.
Durante um evento de pré-campanha realizado no último fim de semana em Santa Catarina, o senador chegou a usar uma camiseta com a frase: “O Pix é do Bolsonaro; o Master é do Lula”, em uma tentativa de associar o escândalo financeiro ao campo político adversário.
Daniel Vorcaro está preso preventivamente sob acusação de comandar fraudes bilionárias no Banco Master, instituição que teve liquidação decretada pelo Banco Central em novembro do ano passado. De acordo com investigadores, o banqueiro negocia atualmente um acordo de delação premiada, o que pode ampliar as revelações envolvendo políticos, empresários e operações financeiras ligadas ao banco.
A divulgação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro gerou reações no meio político e deve aumentar a pressão sobre parlamentares da oposição e aliados do ex-presidente. Integrantes do governo e líderes partidários defendem que os fatos sejam esclarecidos no Congresso e também pelas autoridades responsáveis pela investigação do caso.
A oposição, por sua vez, tenta minimizar os danos políticos, argumentando que o financiamento mencionado seria uma operação privada sem uso de recursos públicos. Ainda assim, críticos apontam contradição entre o discurso adotado anteriormente por Flávio Bolsonaro e sua admissão posterior de proximidade com o banqueiro investigado.
O caso ocorre em um momento de reorganização política da direita brasileira, em meio às movimentações para as eleições presidenciais e às disputas por protagonismo dentro do campo conservador.



